quinta-feira, 17 de setembro de 2020

“Procuro abrigo” de Waldeci Farias. A preferida do Zé.

Os domingos na Igreja São Jaime em 1977 amanheciam iluminados. Cada vez mais inspirado, um padre novo na paróquia, de barba preta e homilias criativas e contextualizadas, encantava a todos com uma vocação exuberante. Albino trazia o violão e a voz com novas canções.

Responsável pela parte musical das missas o jovem também de barba apresentava uma nova canção de Waldeci Farias. O padre carioca novato na paróquia era José Roberto Rodrigues Devellard. Tinha vindo da reitoria do Seminário São José abençoado pelo cardeal potiguar Dom Eugénio de Araújo Sales direto para os braços de uma comunidade no Lins que o recebeu com o carinho que ele conquistou e passou a merecer.

Logo percebi que a nova canção trazida por Albino também empolgou o jovem sacerdote. Era “Procuro abrigo” que foi escalada para ser Canto de Comunhão.  Zé, como era carinhosamente chamado pelos paroquianos e por mim, ainda postulante aos acordes de violão, soltava o vozeirão mesmo distribuindo a hóstia abençoada:

 

“Procuro abrigo nos corações

De porta em porta desejo entrar

Se alguém me acolhe com gratidão

Faremos juntos a refeição...”

José Roberto transformou a São Jaime numa família. Eu torcia para chegar o final de semana para encontrar a turma do grupo jovem. Ajudar nas atividades pastorais da Igreja e fazer aquilo que eu mais gostava: tocar nas missas quantas fossem e ver crianças, jovens, adultos e os mais experientes cantando junto com aquele padre carismático.

Na hora da comunhão lá estavam Albino, Guilherme e eu puxando os cantos e fazendo o povo orar duas vezes como dizia o saudoso Padre João Maria:

 

“Eu nasci pra caminhar assim

Dia e noite eu vou até o fim

O meu rosto forte sol queimou

Meu cabelo o orvalho já molhou

Eu cumpro a ordem do meu coração...”

Essa canção ficou marcada em minha vida para sempre. Os versos jamais esqueci e também o entusiasmo que o padre colocava na voz nessa canção empolgava a todos a ponto dos quatro barbudos não pararem de cantá-la mesmo com a comunhão encerrada esperando a Ação de Graças, momento após a comunhão para reflexão e silêncio.

 

“Vou batendo até alguém abrir

Não descanso o amor me faz seguir

É feliz quem ouve a minha voz

E abre a porta , entro bem veloz

Eu cumpro a ordem do meu coração...”

 

“Junto à mesa vou sentar depois

E faremos refeição nós dois

Sentirás teu coração arder

E esta chama tenho que acender

Eu cumpro a ordem do meu coração...”

Participei de encontros de jovens em outras paróquias e pude sentir na Igreja da Consolação, na Barão do Bom Retiro,  que essa música do cearense Waldeci Farias já estava no repertório e no coração dos sacerdotes e do povo. No coração do Zé era impressionante. Hoje morando no Maranhão eu o vejo feliz e inspirado como sempre celebrando e procurando abrigo nos corações pelas imagens da TV Brasil onde do Rio celebra aos domingos.  O Brasil inteiro pode perceber que eu não estava errado. Suas homilias contextualizadas e cheias de ensinamentos transcendem geografias chegando ao país num misto de inspiração, devoção e fé.

E ele continua cantando a sua preferida:

 

“Aqui dentro o amor nos entretém

E lá fora o dia eterno vem

Finalmente nós seremos um

E teremos tudo em comum

Eu cumpro a ordem do meu coração”.

Pretendo um dia voltar ao Rio e ficar de frente para ele na capela das Aparições e lhe mostrar uma foto que tiramos juntos quando eu era catequista e preparei o primeiro grupo de jovens para a eucaristia na antiga São Jaime em 1978. Sua barba era longa e preta e a minha estava saindo.  Não sei se vai me reconhecer, mas eu saberei que ele é o eterno Zé da São Jaime, hoje São Tiago, do Lins sua primeira paróquia que ele transformou numa família.

Ele agora com cabelos brancos e se movendo lentamente, mas com a mesma voz e vigor de outrora , não vai precisar bater de porta em porta. Deus já o acolheu em sua eterna vocação, onde prossegue convertendo corações e servindo de abrigo aos que necessitam de sua palavra. Lá da Nossa Senhora da Ressurreição, em Copacabana, sua nova casa, os corações dos seus fieis já têm abrigo.

Paço do Lumiar (MA) segunda feira, 14 de setembro de 2020 às 04h 58min 15s

*Monsenhor José Roberto Rodrigues Devellard nos braços de Deus (Obituário)

“Vem e eu mostrarei” de Waldeci Farias. O terceiro violão e o substituto.

Era um sábado em 1977 e ao chegar à São Jaime o Zé foi logo dizendo que eu iria assumir a missa das 19 horas na capela. Os cantores e violonistas principais tinham ido a uma excursão da paróquia e não estariam ali. Gelei dos pés à cabeça, pois era só um auxiliar e sabia muito pouco das canções sacras que os mestres já faziam muito bem. A única que sabia tocar bem era o canto de comunhão de Waldeci Farias. “Vem e eu mostrarei” eu já sabia de cor porque Albino e Guilherme tinham me passado e muitas missas em sequência eu os acompanhava como terceiro violonista, mas verdinho e nervoso demais para substituí-los. Tocar acompanhando Albino e Guilherme era uma coisa. Tocar uma missa inteira sozinho era outra  coisa. Nós três assumíamos as missas de sábado e as de domingo nos alternando conforme a necessidade, mas sempre juntos. Naquele dia estava só. Tinha a responsabilidade de tocar em todas as missas. O Zé, como chamávamos o padre José Roberto, deu força e tranquilizou dizendo que eu deveria tocar só o que soubesse.  Foi o que fiz.

Durante a comunhão soltei o acorde em sol maior e mandei a voz que teimava em não sair tal o nervoso diante de fieis tranquilos e um padre inspiradíssimo:


“Vem, e eu mostrarei que o meu caminho te leva ao pai

Guiarei os passos teus e junto a ti hei de seguir

Sim, eu irei e saberei como chegar ao fim

De onde vim, aonde vou, por onde irás, irei também...”

Inspirado pela confiança em mim depositada por Zé Roberto e ligado na canção, perdi o medo e a vergonha. Tocar e cantar nas missas a partir dali se transformaram num exercício de alegria e satisfação constantes. Passei a copiar todas as letras com cifras e treiná-las à exaustão para evitar novas surpresas. Os sábados e domingos eram aguardados com expectativa e entusiasmo. A Igreja São Jaime no Lins foi a minha escola de canto e violão. Era demais tocar sendo a voz guia de um povo que buscava a Deus nas belas letras e músicas do Waldeci Farias. Ao voltar, Albino e Guilherme descobriram que suas aulas funcionaram. Eu já não era mais o terceiro violão da paróquia. Era mais que um substituto. Era junto com eles o violão principal das missas belamente tocadas e cantadas pela comunidade.

Waldeci Farias nasceu no Ceará em 1943 e foi para o Rio de Janeiro tentar a carreira religiosa no Seminário Franciscano de Petrópolis. Como frade não descobriu a vocação, pois sua música falou mais alto. Com apoio de religiosos seguiu carreira como um dos maiores compositores católicos do país. Suas canções são até hoje interpretadas em missas por todo o Brasil.

Em 2013 uma grande homenagem foi feita no Rio ao artista das canções sacras. Um tributo a Waldeci Farias foi prestado pelo serviço de divulgar a palavra de Deus por meio de canções. “Procuro abrigo nos corações”, preferida do Zé Roberto,  e outras como “Este pranto em minhas mãos”, “Sou bom pastor” e “Sobe a Jerusalém” estavam lá. Sem contar uma que me fez perder o medo de divulgar a palavra sacra através da música:

 

“Vem e eu te direi o que estás a procurar

A verdade é como o sol e invadirá teu coração

Sim, eu irei e aprenderei minha razão de ser

Eu creio em ti que crês em mim e a tua luz

Verei a luz...

 

Vem, e eu te farei da minha vida participar

Viverás em mim aqui, viver em mim é o bem maior

Sim, eu irei e viverei a vida inteira assim

Eternidade é na verdade o amor

Vivendo sempre em nós...

 

Vem que a terra espera quem possa e queira participar

Com amor na construção de um mundo novo muito melhor

Sim, eu irei e levarei teu nome aos meus irmãos

Iremos nós e teu amor vai construir enfim a paz.”

Letra: Pe. Josimar Braga

Música: Waldeci Farias

Waldeci se despediu e foi tocar piano e compor mais perto de Deus. Suas letras e canções me ajudam até hoje, quando toco nas missas, a crer sempre na luz. Sei agora que a verdade é como o sol. Minha razão de ser eu já descobri.  Ele mostrou Cristo a mim e ao Brasil. Não estou mais a procurar. Minha voz e violão fizeram da vida de Cristo participar.  Ser primeiro ou terceiro não faz mais a menor diferença. Não há nada que substitua a luz.

                                            Paço do Lumiar (MA) domingo, 13 de setembro de 2020 às 10h 57min 18s


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

“Is this love” de Bob Marley. São Luís adota o reggae.

Em 1978 vim de férias para São Luís. Stênio, meu primo, cantava na noite em bandas de baile e alertou:

- Joãozinho, o reggae chegou para ficar.

Até onde eu sabia São Luís do Maranhão era terra de bumba meu boi. Não era mais. A Jamaica com inglês e tudo assumiu o lugar em uma terra outrora fundada pelos franceses. Paris continuava na França enquanto Kingston tinha se transferido para São Luís.

Comprovei tal mudança andando pelas estreitas ruas da capital com gente dançando coladinho com boinas de cores jamaicanas. Vi com espanto gringos e nativos petrificados diante de enormes radiolas. Eram as “pedras”. Nome dado ao som que vinha forte das caixas.

João Chiador tinha um concorrente de peso. Era Bob Marley e a letra de “Is this love” estava na ponta da língua de uma gente que parecia ter trocado o tambor onça, as matracas e os pandeirões por outro sotaque com guitarras deslizantes e cadenciadas dos adeptos do rei Marley. As rádios já tinham programação direcionada para as festas regadas ao som da Jamaica.

Ouvi cantores da noite arriscando um inglês jamaicano:

 

“I wanna love you and treat you right

  I wanna love you every day and

  Every night We’ll be together with a roof

  Right over our heads

  We’ll share the shelter

  Of my single bed

  We’ll share the same  room, yeah!

  For Jah provide the bread

  Is this love is this love

  Is this love that I’m feeling...”

Impressionado com a presença jamaicana na única capital que não nasceu lusitana percebi claramente a globalização como conceito. Como o reggae chegou ao Maranhão? Como os maranhenses adotaram esse jeito de cantar, tocar e dançar próprios dos guetos jamaicanos?

A questão era única. O povo sofrido de lá encontrou ressonância no povo sofrido daqui. Peguei minha boina, um velho vinil do rei Marley e voltei para o Rio de Janeiro.

Quando desci na Rodoviária Novo Rio escutei nos altos falantes:


“I wanna know wanna know wanna now

 I got to know got to know... Ah , Ah, Ah..”

Paço do Lumiar(MA) terça feira, 23 de junho de 2020 às 07h20min07s

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

“Navega coração” de Kleiton e Kledir. De Pelotas para o Brasil.

O projeto “Seis e meia” trazia naquela semana MPB-4.  No Teatro João Caetano show com gente boa era por um preço acessível. Um grande nome apresentava um novato para apreciação da exigente plateia carioca. Eu estava lá. Era 1980.

Mesmo não sendo da terra me comportava como tal, pois o Rio é a capital cultural do Brasil. O famoso grupo vocal anunciava um pessoal do sul. Eram os irmãos gaúchos Kleiton e Kledir. Na verdade os gaúchos de Pelotas não tinham nada de novatos. Já estavam na estrada há algum tempo e chegaram ao Rio com experiência para mostrar o que o Rio Grande lá de baixo tinha para oferecer ao Brasil.

Quando anunciados encantaram o público com uma Maria fumaça de sotaque e tudo que passou levando todo mundo. Com um violino, ou coisa parecida, e um violão a gauchada arrasou.

Um ano depois apareceram num festival com uma canção linda e cheia de recados gerais. O regionalismo deu lugar a um roteiro novo que colocariam os “guris” nos palcos do Brasil.

“Navega coração” conquistou o país:

 

“Nos naufrágios que o destino

  Vem tentando me pregar

  Vou nadando meus caminhos devagar

  Desde os tempos de menino

  Aprendi a navegar

  Com as bússolas que eu mesmo inventar

  Hoje eu sei as armadilhas

  E os segredos desse mar

  Que viver não é preciso nem será...”

A impressão que tive é que estava diante de um novo momento na MPB. Os gaúchos trouxeram letra e música com primor. Arranjo bem elaborado com uma poesia verdadeira e de alcance. Destaque-se aí o vocal ao fundo do grupo "Céu da Boca" e orquestração perfeita de notas e violinos.

Kleiton e Kledir chegaram armados ao Rio. Já tinham trilhado no Sul uma estrada de sucessos com o trabalho feito nos “Almôndegas” que chegaram para uma trilha de novela global. Quem não se lembra da “Quando à meia noite me encontrar junto a você algo diferente vou sentir vou precisar me esconder...”

Depois do reconhecimento não precisaram mais levantar âncoras. Pelotas já tinha se apresentado para o Brasil. Muitos outros sucessos conquistaram público e crítica.

E o coração dos gaúchos voaram pra lá do arco-íris sem piratas e dragões. O sul chegou pra ficar.

Paço do Lumiar (MA) terça feira, 23 de junho de 2020 às 06h03min08s

 

sábado, 12 de setembro de 2020

“Enquanto engoma a calça” de Ednardo. O maranhense Chico me apresenta ao som do Ceará.

Que os cearenses chegaram pra ficar o Brasil inteiro ficou logo sabendo. Eles não eram só bons humoristas. Eram bons também de viola. Em compor nem se fala.

Após passar no concurso para o Banco do Brasil e ser motivo de admiração e respeito pelo esforço dos familiares, meu primo Chico de Caxias passou um tempo perambulando por agências do Maranhão e foi parar no Ceará.

Com o tempo trocou o “éguas” dos maranhenses por “macho” dos cearenses.

No Maranhão os cearenses já eram conhecidos e admirados pelo talento. Belchior e Fagner já tomavam conta das poucas rádios de São Luís e nos bares os seresteiros iniciavam logo o repertório com eles pra fazer bonito.

“Comentários a respeito de John” e “Canteiros” já estavam nos ouvidos dos amantes do happy hour da época. Sacramentaram presença cearense não só na noite maranhense, mas no país inteiro. “Na hora do almoço” e “Conflito” já eram consagradas desde a época que morei no Rio em 1976.

Em 1983 fiz uma passagem rápida por Fortaleza a convite do primo Chico. Ele estava lá a trabalho e o principal lazer era ir para o clube social dos funcionários do banco nos finais de semana dançar e ouvir boa música. Fã confesso de Gonzaguinha pedia sempre para puxar na viola uma de suas músicas. “Sangrando” o fazia chorar e lembrar do Maranhão. Não sei o lado afetivo dessa canção com o primo. Uma paixão ou simples saudade da terrinha. Isso ele nunca me falou. Só sei que o rapaz cantava a música trabalhada nas lágrimas.

Mas além do compositor carioca que ele gostava apresentou-me outro cearense. Eu disse: mais um. E o cara era bom mesmo. Era o Ednardo de “Terral” e que já tinha feito trilha até para uma novela global: “Pavão Misterioso”.

A canção produzida em 1979 deslizou no vinil da sala em Aldeota com um gostoso violão fazendo ponte e percussão a gosto. O som cearense assim chegou:


“Arrepare não , mais enquanto engoma a calça

Eu vou lhe contar uma história bem curtinha fácil de cantar

Porque cantar parece com não morrer

É igual a não se esquecer que a vida aqui tem razão.

 

Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou

Não foi passarinho foi o olhar do meu amor

Me arrepiou todinho e me eletrizou assim

Quando olhou meu coração...”

Gostei demais e falei pro Chico que aquela já estaria no próximo repertório. Cantamos juntos a noite inteira e depois nas Praias do Náutico e de Iracema pude perceber como eles valorizam seus artistas. Nos violões das calçadas as moças cearenses cantarolavam ao sabor do chopp geladíssimo e da farta gastronomia local sua música sem súplica.

Na rodoviária, rápida despedida. O primo agradeceu a visita. Rumei para o Rio.

Caminhando por Vila Isabel escuto de um som potente vindo de um alto falante uma canção:

 

“Amanhã se der um carneiro, carneiro

 vou me embora daqui pro Rio de Janeiro...”

Pensei: serão os cearenses? E era. Eles atacavam de novo. Liguei pro Chico e avisei: adivinha quem desembarcou no Rio?  Ele respondeu rápido interrogando: Ednardo? Pensei: ele já sabia. 

Paço do Lumiar(MA) domingo 21 de junho de 2020 às 19h03min09s

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

“Lay lady lay”. Dylan e o seminário.

Bob Dylan já era conhecido dos amantes de sons interplanetários em 1978. Naquele ano cismei de entrar para o Seminário São José para ser padre. Melhor: mudar o mundo. No primeiro encontro com meu diretor espiritual, o recém ordenado Padre Edson Homem, fui logo alertado que a missão era outra: evangelizar. Pensei rápido: será que estou no lugar certo?

Confuso como todo adolescente de 17 anos e empolgado com a convivência humana e idealizada dos grupos jovens da época pensei por que não? Na Paroquia São Jaime, no Lins, alguns já me chamavam de reverendo e uns até me idealizavam celebrando seus casamentos.

Quando me vi já estava lá convivendo numa rotina de estudos, orações e rock. Pasmem. A galera quando se reunia no final de domingo após trabalhos pastorais nas suas paróquias trocavam os acordes sacros por Beatles, Bee Gees e Peter Frampton. Tinha vida musical no Seminário Menor destinados aos garotos do ensino médio. Os que faziam Filosofia e Teologia quase padres estudavam no anexo Maior.

Mas alguém inovou e trouxe algo diferente. Os garotos enchiam o Cascadura-Estácio da linha 607 e vinham de todos os cantos do grande Rio, principalmente subúrbio. Era no ponto final na Avenida Paulo de Frontin que o seminário ficava e ali era uma mistura de Tijuca, Estácio e Rio Comprido. Esse era Raphael que sempre trazia desafios novos para a galera da viola. Ele era de Cascadura e eu do Lins de Vasconcelos. Outros vinham de Bangu, Madureira e de Ricardo de Albuquerque que nem sabia que existia no Rio. Mas Lucas lá morava e já nos tinha convidado para uma visita. Só um porém apareceu: é longe.

Era “Lay lady lay” de Bob Dylan. A sequência é fácil e segue uma combinação harmônica previsível, alegava o empolgado Raphael. Fácil pra ele. Ali poucos faziam uma pestana audível e eu ainda estava tentando me adaptar aos horários da casa de formação.

Bob mandava bem e estourado estava na boca e nos acordes da galera alternativa. O carinha tinha fama de fazer uma música de protesto antenada com questões sociais e até políticas. Eu não. A minha antena estava voltada para aprender “Lay Lady Lay” sem pestana: a maldição de todo aspirante às seis cordas. Pouco provável. A tal pressão sobre as cordas com um dedo só estava em quase todas as músicas do americano de Minnesota.

A canção era figurinha constante na programação tanto de AM’s quanto de FM’s na capital carioca e dizia:

“Lay Lady Lay

Lay across my big brass bed

Lay lady lay

Lay across my big brass bed

 

Whatever colors you have in your

Mind

I show them to you and you see

Them shine

 

Lay lady lay...”

Com o tempo, saudade dos meus amigos e a rígida disciplina do seminário me fizeram acreditar que ali minha vocação não estava. Nada contra o seminário. Os padres eram legais. inclusive o Padre Mazine tratava todos como filhos. Alegre e carismático, o padre que trocou o Ceará pelo Rio, não media esforços para nos sentirmos animados na fé e na vocação. Ele era um exemplo como prefeito do seminário. O futebol era uma de suas paixões e se divertia com o futebol total onde todos corriam atrás da mesma bola. Menos o filósofo Pedro Paulo que dizia aquilo ser rude demais, preferia seus livros. Mazine ficava entusiasmado com uma ordenação sacerdotal porque a missão estaria cumprida. “A messe é grande e os operários são menos ainda”, dizia parafraseando com texto sagrado.

O negócio é que cada um pertencia a um grupo. Lucas dos atletas da pelota, Pedro Paulo dos filósofos, Milton dos compositores, Raphael dos instrumentistas e Stanislau dos especialistas em agulhas, pois era diabético e sabia tudo da doença. Eu era um peixe fora d’água e só queria estar com meus amigos do grupo jovem da minha paróquia, tocar nas missas, jogar conversa fora, dançar Bee Gees e ir para casa. Agora a rotina era outra. Depois da missa do domingo à noite pegar o 607 na Rua Maria Antônia e rumar para o Estácio.

Mas em setembro veio a despedida. Deixei o seminário e decidi buscar outro caminho. Quem sabe a música ou o magistério ou ambos. Nunca mais tive notícias dos meus amigos da casa de formação a não ser anos depois. Levei comigo ótimas lições e cultura. Pensei: quantos irão até o final?

Raphael virou roqueiro e um padre se preparava para uma entrevista quando algo me chamou a atenção. A moça morena de longos cabelos no Bom Dia Rio anunciou o entrevistado para falar da campanha da fraternidade. Com vocês o Padre Pedro Paulo. Com alegria vi o jovem sacerdote de longa batina preta discorrer filosoficamente sobre o tema. Não é que o cara chegou lá?! Senti uma ponta de admiração e um pouco da nada politicamente correta inveja.

Um dia, ao ligar a televisão, vejo em um programa dominical uma atração anunciada com entusiasmo pelo mestre de cerimônias. Barba longa, jeans clássico, óculos azul, tênis e um violão negro com cordas brilhantes o ilustre convidado. Era Bob Dylan. Mas a música não era mais "Lay Lady Lay".  Com forte voz anasalada e rouca tocou “Blowin in the Wind”. De novo corri para o violão e tentei com pestana e tudo aprender a nova canção. Nova pra mim. Ela já era estourada desde os tempos do Seminário São José. Ou melhor, desde os primórdios quando de fraldas eu ainda engatinhava no chão da casa em São Luís do Maranhão vinte e cinco anos atrás. O seminário continuou formando sacerdotes e Bob Dylan fazendo lendárias canções com pestanas improváveis. E eu tentando mudar o mundo. 

Paço do Lumiar (MA), domingo, 21 de junho de 2020 às 18h06min36s  

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

“Faz parte do meu show” de Cazuza. Meio bossa, meio rock.

No meio dos anos 80 o rock mandava no Brasil. O advento de concertos influenciou uma tendência mundial. O rock tinha ressuscitado com força total. Bandas com nomes pitorescos saiam das garagens para o estrelato da noite para o dia. Mas quem iria sobreviver?

Muitas ficaram no caminho e outras permaneceram guerreiras se reinventando para não sucumbir. O mercado e o tempo são implacáveis.

Mas uma suportou bravamente graças ao talento de um certo Agenor: A Banda Barão Vermelho. A guitarra foi apresentada ao Rock em 1985 no Rio com versos de um poeta rebelde, boêmio e travesso.

Nome de poeta não tinha, pois no batismo o carioca zona sul era Agenor de Miranda Araújo Neto. Não demorou para ser chamado apenas de Cazuza.

A impressão que tive é que estava diante de um turbilhão de verdades expressas sem medo pelo novo poeta. Parecia a guitarra ser o transporte não só de acordes, mas de reclamos que sacudiam o país em busca de uma nova ideologia pro dia nascer mais feliz.

Mais um dia o poeta trocou a guitarra de sons fortes por um suave violão bossa nova e nasceu “Faz parte do meu show”. Romantismo ousado e palavras gentis que não deram bola para a marcação colada da gramática convencional:

 

“Te pego na escola e encho a tua bola

Com todo o meu amor te levo pra festa e testo

O teu sexo com ar de professor

Faço promessas malucas tão curtas

Quanto um sonho bom

Se eu te escondo a verdade, baby

É pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show...”

 A pureza dos versos não pouparam a sensualidade horizontal dos sentidos com elegância:

 

“Confundo as tuas coxas com as de outras moças

Te mostro toda a dor te faço um filho te dou outra

Vida pra te mostrar quem sou...”

Um dia num clipe sem nexo já debilitado Cazuza apareceu cantando baixo e suave a canção. Um gentil e sincopado violão ao fundo anunciavam uma despedida próxima meio bossa meio rock. A promessa foi curta, mas o sonho foi bom.

                                                  Paço do Lumiar (MA), domingo, 21 de junho de 2020 às 10h03min07s