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quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Um anjo com doce voz de menina. “Lovin’ you” de Minnie Riperton.

Um violão de macios acordes e sons de passarinhos introduziam a doce voz de Minnie Riperton. Parecia um anjo a soletrar em meu ouvido uma canção de melodia indescritível pela sensualidade e sensibilidade. Era “Lovin’ you” e nunca mais esqueci.

Pouco ou quase nada sabia da cantora de afinação extraordinária. Em 1975, Minnie já estava estourada no mundo com a bela canção. Com 15 anos ainda incompletos eu começara a frequentar os bailes. Era a música preferida dos casais para dançar coladinho e tentar ao pé do ouvido uma conquista. Essa habilidade eu ainda não tinha e me limitava a ouvir e imaginar como seria aquela cantora.

Com pesquisa descobri que a cantora era de Illinois, Chicago, EUA. Chamava-se Minnie Julia Riperton Rudolph cantava soul, rock e ficou famosa justamente com a minha música preferida.

Minnie começou cedo. Aos quinze anos já era reconhecida pelos dotes vocais acima da média. Participou com a ajuda dos pais de grupos vocais como “The Gems” e mais tarde “The Rotary Connection”. Seguiu carreira solo e gravou o álbum “Perfect Angel”, de onde saiu o mega sucesso “Lovin’ you”.

Um dia a menina de voz doce afinada e de um agudo que até hoje ecoa nos meus ouvidos nos deixou. Pouco tempo. Viveu apenas 31 anos.  Era 1979, eu acabara de completar 19 anos de vida, muito novo para entender e ela para partir. Talvez por ser anjo precisasse retornar ao lugar onde só os passarinhos entendem o tempo.

A minha impressão é que “Lovin’ you” veio na voz de Minnie dizer que os anjos estão entre nós. Só quem ouve pode ver e sentir. Ainda hoje a percebo soletrando baixinho ao meu ouvido algo que até o tempo tentar explicar:

 

“Lovin’ you is easy cause you’re beautiful

 Makin love with you is all I wanna do

Lovin’ you is more than just a dream come true

Everything that I do is out of lovin ‘ you...”

 

“Amar você é fácil porque você é lindo

E fazer amor com você é tudo que quero

Amar você é mais que um sonho realizado

E tudo que faço é por amor a você...”

Mais na frente o texto fala em envelhecermos juntos e vivermos cada primavera. Esse tempo ela não teve aqui, mas terá na eternidade onde alguém dirá a outro alguém “Lovin’ you”. Um anjo é imortal, o amor também.

 Paço do Lumiar (MA) sábado, 27 de junho de 2020 às 08h59min31s

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

“Ouça” de Maysa. Os olhos do amor maior.

A primeira olhada é a que fica. Olhos graúdos e jeito livre encantavam a todos. Era Maysa Figueira Monjardim. O Brasil a conhecia simplesmente como Maysa Matarazzo.  Foi assim comigo ao vê-la pela primeira vez cantando e encantando. Eu passei a chamá-la de Maysa e o Brasil também.

A moça carioca tinha tanto talento quando cantava que mal conseguia esconder que trazia no olhar a luta interna que travada com o próprio coração.

Era 1975 e com 15 anos eu já olhava para Maysa com espanto. Assustei-me ao vê-la brilhantemente atuando como atriz em novela global e sua beleza era extraordinária. A voz nem se fala.

Mas foi uma de suas letras que me impressionou em definitivo. “Ouça” chegou assim:

 

“Ouça vá viver sua vida com outro bem

Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém

O passado não foi o bastante pra lhe convencer

Que o futuro seria bem grande

Só eu e você

Quando a lembrança com você

For morar

E bem baixinho de saudades você chorar

Vai lembrar que um dia existiu

Um alguém

Que só carinho pediu

E você fez questão de não dar

Fez questão de negar.”

Os imensos olhos não apagaram o brilho da voz arquitetada em um arranjo divinal. A canção acalma a alma de quem num cantinho escuro estiver sofrendo do mal maior: o mal de amor. Parecia uma resposta a um amor que ficou. Mais tarde foi possível perceber que Maysa tinha uma convivência conturbada com seus próprios sentimentos. Cantando isso ficava evidente pela carga emotiva imposta pela voz e pela interpretação. Até um cego perceberia.

No final da tarde, quase à noitinha, em 1976, numa segunda feira de carnaval, no mês de março indo para o Rio num velho ônibus da Itapemirim que tinha o hábito de levar nordestinos em direção à cidade maravilhosa em busca de dias melhores cruzei a Ponte Rio-Niterói. Estava chegando ao destino final e sem saber que naquele mesmo lugar um ano depois a bela cantora de olhos graúdos e tristes perderia a vida. Os belos olhos se fecharam para sempre. Sua voz não. 

Paço do Lumiar(MA) sábado, 20 de junho de 2020 às 21h03min06s