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sábado, 13 de junho de 2020

As “velas içadas” de Ivan vão parar no Lins

Impressionado com a minha capacidade de mudar de um lugar para o outro, Guilherme, meu amigo da Travessa Narceja em frente à Paroquia São Jaime no Lins, perguntou-me por onde eu andava. Eu disse que estava meio sem paradeiro, morando aqui morando ali, e que no momento não tinha um lugar certo.

Certo mesmo era ir para a escola noturna tentar concluir o tal do 2º grau. No Colégio Francisco Campos, no Grajaú, fiz amigos e em especial uma moça da pele clarinha de sorriso lindo, meigo e doce. Era educadíssima e falava baixo e pouco. Ficamos grandes amigos a ponto de nos preocuparmos um com o outro quando na escola não aparecia.

Consegui um emprego de zelador de uma Igreja no bairro do Rocha e o padre me ofereceu um quartinho para morar. Era outubro de 1979 e já era alguma coisa. Ter um endereço, um salário e o rango de graça com direito ao café da manhã estava do jeito que eu gostava. O contrato era de três meses e sei que em dezembro voltaria a não ter paradeiro.

De vez em quando eu sumia da escola e quando eu retornava lá estava ela a me perguntar por onde eu andava. Com firmeza falei orgulhoso o endereço que agora tinha.

Ah, estou morando na Rua Ana Nery, 1114 no Rocha.

Ela anotou e disse que um dia iria me escrever uma carta, caso não nos víssemos mais nas férias. 

Nossos papos eram ótimos, ficávamos o recreio inteiro conversando sobre música e nossas ansiedades de futuro, carreira, trabalho e família. Mas música nos unia pelo mesmo gosto e afinidades sonoras. De longe alguém comentou: “esses dois estão namorando”. Era só amizade.

Em novembro nos despedimos esperando a ano seguinte para enfim ir para o 3º ano e pegar o tal diploma, patamar para um momento melhor, segundo meu professor Nilo que ensinava a sofisticada Física como se fosse um passatempo.

No ano seguinte, morando aqui morando ali de novo, reencontrei a moça que disse que tinha escrito uma carta para mim. Como não estava mais no Rocha e perambulava pelo Lins novamente dormindo ali e tomando café acolá, imaginei que a carta ainda estava com ela. De fato foi devolvida e a recebi em mãos. Era uma carta em forma de canção de amor. Um belíssimo texto de Ivan Lins e Vítor Martins e eu que da dupla só conhecia “Madalena” imortalizada pela talentosíssima Elis Regina, a pimentinha gaúcha.                                                                                               


“Seu coração é um barco de velas içadas,

Longe dos mares do tempo, das loucas marés.

Seu coração é um barco de velas içadas,

Sem nevoeiros, tormentas, sequer um revés.

Seu coração é um barco jamais navegado,

Nunca mostrou-se por dentro

Abrindo os porões...”

Ao encontrá-la à noite na escola, sentando lado a lado e impressionado com o nível do texto, ouvi dos seus lábios puros e rosados a frase:

É assim que eu te vejo: livre.

Com o texto na mão agradeci silenciosamente e retornei feliz e apaixonado para o lugar por onde sempre perambulava. Em abril de 1980, um beijo na Quinta da Boa Vista selou mais que amizade. A frase “esperei tanto por esse beijo” dito na sua voz ecoa no meu ouvido até hoje. Quatro anos se passaram e me tornei professor. Em 1984, subimos ao altar e casamos. Era maio e o lugar Ivan nem desconfia que traz no sobrenome. Hoje tenho um endereço, um grande amor e meu barco já ancorou.