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domingo, 31 de janeiro de 2021

“Aula de Matemática” de Tom Jobim. A bossa nova vai à escola.

Como professor de português levava sempre o violão para o Curso Santa Madalena. Preparar a garotada da 8ª série, em 1993, para seletivos puxados exigia conteúdo e criatividade. Naquele sábado surpreendi a todos dizendo que o maestro carioca Tom Jobim estaria conosco na aula naquele dia. Só esqueci-me de avisar que seria a sua poesia musicada que viria. Trazer o grande mestre da bossa nova para um pequeno curso preparatório situado em Paço do Lumiar, no Maranhão, não estava dentro das minhas possibilidades.

Com giz na mão redigi no quadro a letra de “Aula de matemática” que alguns copiavam animados, outros nem tanto. Os versos surgiram assim:


“Pra que dividir sem raciocinar
Na vida é sempre bom multiplicar
E por “A” mais “B” eu quero demonstrar
Que gosto imensamente de você
Por uma fração infinitesimal
Você criou um caso de cálculo integral
E para resolver este problema
Eu tenho um teorema banal:
Quando dois meios se encontram
Desaparece a fração
E se achamos a unidade
Está resolvida a questão
Pra finalizar vamos recordar
Que menos com menos dá mais amor
Se vão as paralelas
Ao infinito se encontrar
Porque demoram tanto
Dois corações a se integrar
Pois desesperadamente
Incomensuravelmente
Eu estou perdidamente
Apaixonado por você”.

Depois de analisar gramaticalmente o texto, explorando tudo e mais um pouco do que o mestre das letras Evanildo Bechara chama de normativas passei para à parte musical. Cantei com a garotada um som que para eles era novo. No início dos anos 90, essa turma estava mais para a estouradíssima “Fácil” da banda mineira J-Quest com guitarras que para os suaves acordes da bossa nos distantes anos 50.  Mesmo assim agradou e Manoel, um dos alunos que chegava cedo, ficou impressionado com um casamento improvável. Os acordes dissonantes e a  matemática. Pense que foi numa aula de língua portuguesa.

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu no Rio de Janeiro em 25 de janeiro de 1927. Foi um compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista. Criou um dos maiores movimentos de música popular jamais visto no Brasil: a Bossa Nova. Com sua “Garota de Ipanema”, feita em parceria com o amigo poeta Vinícius de Moraes, imortalizou mundialmente o movimento que serviu de referência histórica para músicos do planeta como uma das mais belas páginas da arte pautada em melodia, ritmo e harmonia.

A arte dos números se curvou diante da imensa criatividade do poeta musical. Naquele dia a bossa nova foi à escola para mostrar que uma bela canção pode ensinar o mundo a ser melhor e que a arte que encanta os ouvidos também começa com a letra “M”.

Paço do Lumiar (MA) domingo, 01 de novembro de 2020 às 05h 08min 27s.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Agostinho dos Santos, a voz

O objetivo desse blog é relatar os primeiros contatos que tive com a música popular brasileira e mundial desde a mais tenra idade. O tudo que trago vem das primeiras impressões e audições a partir dos sete anos de idade completados em dezembro de 1967, no dia sete. Pelas ondas das Rádios Timbira, Gurupi, Difusora, Educadora e Ribamar tornei-me assíduo ouvinte dos programas musicais na São Luís do Maranhão ainda pacata, no populoso bairro do João Paulo, mais precisamente na pequena casa de dois cômodos onde eu e minha mãe Madalena cantarolávamos as canções românticas que destruíam os corações na Rua São Vicente de Paulo. O pequeno rádio de duas pilhas: amigo certo das horas incertas.

A primeira impressão veio com a voz aveludada e afinada de Agostinho dos Santos. Foi primeira voz a ser ouvida com zelo e admiração numa canção por título “Balada Triste”. Aprendi logo e em poucos dias lá estava o aspirante tentando imitar o mestre:


“Balada triste que me faz lembrar alguém, alguém que existe e que outrora foi meu bem. Balada triste, melodia do meu drama, esse alguém já não me ama esqueceu você também...”

Sempre gostei de prestar atenção no jeito de cantar dos artistas que eu ouvia e imaginando como seriam feitas aquelas belas canções. Os instrumentos, principalmente a voz e o violão, pareciam separados nas minhas observações de criança.

Ao cair da tarde começava o Programa Alegria na Taba na poderosa Rádio Timbira do Maranhão e lá estava Agostinho dos Santos de novo cantando uma faixa por título “A felicidade”. Violão e tamborim marcavam um samba diferente. Pequeno, ainda não entendia, mas falavam ser de um poeta carioca famoso cujos versos diziam:


“Tristeza não tem fim, felicidade sim. A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor brilha tranquila depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor.”

                Chamava-se Vinícius de Moraes o autor dos versos que ecoavam muito bem na voz do cantor. Muito seria falado a seu respeito anos depois ao criar a Bossa Nova junto com o maestro carioca Tom Jobim que se uniu ao violão sofisticado do baiano João Gilberto. Agostinho com eles já estava interpretando e dando vida às canções destes mestres.

Meu sonho um dia era ver de perto o grande cantor e poder aplaudi-lo. Ao entrar em casa numa tarde de julho de 1973 minha mãe me disse: “filho, um avião caiu lá pras bandas da França e um dos passageiros era aquele cantor que você vive imitando”. O silêncio tomou conta da minha voz e do coração de 12 anos. Poderia alguém sobreviver a uma queda de avião? Os jornais traziam a triste notícia: uma das vítimas do trágico acidente em Orly, arredores de Paris, era de fato o cantor paulista Agostinho dos Santos. O Brasil inteiro triste cantou: “Orar é poder converter uma doce ilusão em milagre de amor”. Eu não.