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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

“Purpurina” com Lucinha Lins. Lágrimas justas, vaias injustas.

Ao ser anunciada como campeã do Festival MPB SHELL produzido pela Rede Globo em 1981, a música “Purpurina” do compositor gaúcho Jerônimo Jardim foi recebida com uma vaia daquelas. Vaias mais fortes e provocativas foram direcionadas para a belíssima cantora carioca, loura e tímida, que foi anunciada como intérprete: Lucinha Lins.

Nem as lágrimas da cantora amenizaram o clima de insatisfação da enlouquecida turba. A preferida era outra: “Planeta Água” de Guilherme Arantes. Mas com a belíssima voz de timbre inquestionável, a cantora aos poucos meio assustada com a recepção foi dominando a plateia. Impôs a mais humilhante derrota às vais injustas, armada com uma letra formidável e um arranjo magistral. Uma bela voz feminina radiante de emoção cujas lágrimas iniciais deram brilho e afirmação ao seu talento.

Lúcia Maria Werner Viana Lins nasceu no Rio de Janeiro, e na Barra da Tijuca, na adolescência formou o MAU (Movimento Artístico Universitário), onde desenvolveu a paixão pela música e interpretação. Lá conhece o músico e compositor Ivan Lins. Mais tarde passa a assinar Lucinha Lins em função do seu relacionamento com o cantor. O acompanha em inúmeros festivais até chegar em "Purpurina" em 1981.

A canção me impressionou pela delicadeza do arranjo feito para a voz da cantora:

 

“Se você pensa que vai me seduzir

Se você pensa que vai me arrepiar

Pode ser , mas eu sou feito purpurina

Se uma luz não ilumina

Não há jeito de brilhar

 

Se você só chega por chegar

Nenhuma lanterna no olhar

Nosso show não pode acontecer

Sem o palco se acender

Eu não vou representar

 

Se você pensa que vai me seduzir

Se você pensa que vai me arrepiar

Pode ser, mas eu sou feito bailarina

Se a ribalta se ilumina

Fico roxa pra dançar.”

 Parada e surpresa antes de cantar, Lúcia no final desabafa, quando uma repórter lhe pergunta:

 — E agora daqui pra frente pretende participar de outros festivais?

 Ela dispara rápido:

 — Não.

 Retruca a repórter:

 — Por quê?

 Ela devolve:

 — Porque é muito difícil.

Para mim foi difícil entender a falta de sensibilidade de uma multidão. Quem ali esteve e vaiou deve ter se arrependido. Não ouviu, mas viu a maior derrota. Com suavidade, elegância e personalidade as lágrimas justas enxugaram para sempre vaias injustas. A vitória foi do talento. Quem ouviu e viu saiu ganhando. As vaias dessa vez perderam. O tempo se encarregou disso. Hoje Lúcia e Jerônimo são amigos e tiram boas lições do dia em que a plateia se arrepiou de vergonha. A ribalta sempre se iluminará para a linda bailarina dançar.

Paço do Lumiar (MA), domingo, 28 de junho de 2020 às 10h24min09s