Quando um dos integrantes do MPB-4 anunciou o seu nome o público já poderia esperar o melhor. Um dos grupos vocais mais importantes e dos mais talentosos do país completava 40 anos de estrada e trazia convidados para a festa. Um deles era muito especial.
Anunciado, o convidado lentamente apareceu, aproximou-se e de microfone em mãos destacou:
— Esta é a Conceição mais linda da minha vida e será.
O afinadíssimo quarteto atacou e num fá maior os acordes iniciais do violão introduziram:
“Conceição
eu me lembro muito bem, muito bem
Vivia
no morro a sonhar, vivia a sonhar
Com
coisas que morro não tem, que o morro não tem não, não tem
Foi
então, foi só então, que lá em cima apareceu
Alguém
que lhe disse a sorrir que descendo a cidade
Ela
iria subir...”
“Se
subiu ninguém sabe, ninguém viu
Pois
hoje seu nome mudou
E
estranhos caminhos pisou
Só eu
sei que tentando a subida desceu
E
agora daria um milhão para ser
Outra
vez Conceição, Conceição, Conceição.”
Era Cauby Peixoto. O público foi ao delírio, eu às lágrimas. De fato aquela era a Conceição mais bela que já ouvi alguém cantar. A impressão que tive que estava diante de um dos momentos ímpares da música brasileira. O tempo da canção não chega a três minutos e foi o suficiente para ficar na minha memória feito tatuagem como na canção de Chico Buarque.
Não sei se Cauby e o grupo MPB-4 voltaram a se encontrar em palcos brasileiros, pois já com certa idade o mestre do canto já sentia a força do tempo. Cheguei a vê-lo cantando sentado sem força nas pernas, mas não na voz. Isso o tempo não lhe tirou: continuava afinada e com o mesmo vigor de outrora. Um dia sua bela voz se calou, mas não precisou de nenhum milhão para ser outra vez o Cauby de toda Conceição ou a Conceição do Cauby.
Conheci muitas damas de nome Conceição e não poderia supor que um dia me casaria com uma. Eu me casei com a mais bela de todas.
Paço do Lumiar (MA), sexta-feira, 19 de junho de 2020 às 03h09min57s