O bom de ter uma namorada é o fato de sempre ter um lugar legal para ir, principalmente aos sábados e quem sabe ficar para o rango. Como um retirante maranhense que veio para o Rio tentar a vida e quem sabe voltar para a terrinha, ter uma namorada carioca parecia jogar as âncoras e preparar as raízes.
Eu já tinha uma. Morava no tradicional bairro do Estácio, reduto de bambas do samba pelo que fiquei sabendo. Pele clarinha, jeito meigo e de fala mansa ela tinha um gosto musical alternativo e refinado para os padrões do senso comum vigente.
Foi através dela que aprendi a ouvir o som de quatro caras. Um grupo formado em 1978 por Maurício Maestro (baixo e vocal), Zé Renato (voz e violão), Cláudio Nucci (voz e violão) e David Tigel (viola 10 cordas e vocal). Arrebentavam tanto no instrumental quanto na voz. O disco, que no som rolava, era de vinil de um equipamento potente do meu futuro cunhado Sérgio. Um violão e uma viola abrem os trabalhos com uma voz afinadíssima de um deles. Depois fazem juntos:
“Vem morena ouvir comigo essa cantiga,
sair por essa vida aventureira,
tanta toada eu trago na viola,
pra ver você mais feliz
escuta o trem de ferro alegre a cantar
na reta da chegada pra descansar,
no coração sereno da toada bem querer...”
O som parecia vir da fazenda e logo me achei petrificado na interpretação da moça linda que perto de mim cantava baixinho. Pedi para repetir e vi como o grupo já era admirado pelo pessoal da casa. Dona Yolanda, mãe da moça e quem sabe futura sogra, alertou para almoço pronto. Ao ser puxado para a cozinha meio sem jeito e deslocado, perguntei para a moça o nome do grupo que nós havíamos escutado e ela respondeu: Boca Livre.
Paço do Lumiar (MA), 10 de junho de 2020 (quarta feira) às 23h 33min 09s