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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

“Noi due per sempre” com Wess e Dori Ghezzi. A cor do amor em italiano.

Uma canção italiana chegou ao meu ouvido através de um belíssimo casal. Um rapaz negro de voz rouca e aveludada e uma moça loura de um grave extremamente afinado. Eles  encantaram a plateia do mundo com uma das páginas musicais mais marcantes do imenso repertório italiano. Até onde sei representaram a Itália que fervia em festivais onde o romantismo sempre esteve na moda.

A canção romanticamente interpretada era “Noi due per sempre”. Wess e Dori Ghezzi foram um duo ativo de 1972 a 1979. Composto pelo cantor afro americano Wesley Johnson(Wess) e cantora italiana Dori  Ghezzi. Juntos me ensinaram lições de convivência de cores. As cores não existem na voz da canção de amor. São únicas nas palavras de amor. Só uma cor talvez exista. Aquela para a qual os olhos do coração enxergam, pois só o coração tem olhos para ver a cor da alma e alma não tem cor negra ou branca. Tem cor de alma. O amor menos ainda.

Sem saber fluentemente o italiano da canção tento acompanhá-los na doce harmonia. Muitos casais pelo mundo cantaram o amor juntos, mas Wess e Dori Ghezzi o fizeram de um jeito maior que não cabe explicação. O que não tem explicação explicado está.

 

“D’ un tratto sei cosi diversa

Come sei strana stasera...

Ragione come se non fossi

Quello che sono

Daccordo, ma l’amore e um sentimento

Dimensione non ne ha

Primo fiore tu sei

Che dolce inganno

Ho bisogno di te

Non sei sincero

Senza te morirei

Ti amo...

Ti amo,

E noi due per sempre

Nasce il nostro

Giorno E noi

Due per sempre

Basta stare nascosti qui

Sono insiene oggi come

Allora come il primo giorno

E noi due per sempre

Hum...

Da quanto mi hai

Cambiata dentro noi tuoi

Pensieri cammino come

Un idea mi porto

Adosso quello che sei

Per quanto tu mi  resterai

Acanto la risposta non la so.”

Ao ouvi-los tive a certeza de que a nossa única esperança está no amor sem cor e sem territórios demarcados. Uma bela canção de amor é como o primeiro beijo. É só dizer: Nós dois para sempre.

Paço do Lumiar (MA), sábado, 27 de junho de 2020 ás 20h12min09s

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Um anjo com doce voz de menina. “Lovin’ you” de Minnie Riperton.

Um violão de macios acordes e sons de passarinhos introduziam a doce voz de Minnie Riperton. Parecia um anjo a soletrar em meu ouvido uma canção de melodia indescritível pela sensualidade e sensibilidade. Era “Lovin’ you” e nunca mais esqueci.

Pouco ou quase nada sabia da cantora de afinação extraordinária. Em 1975, Minnie já estava estourada no mundo com a bela canção. Com 15 anos ainda incompletos eu começara a frequentar os bailes. Era a música preferida dos casais para dançar coladinho e tentar ao pé do ouvido uma conquista. Essa habilidade eu ainda não tinha e me limitava a ouvir e imaginar como seria aquela cantora.

Com pesquisa descobri que a cantora era de Illinois, Chicago, EUA. Chamava-se Minnie Julia Riperton Rudolph cantava soul, rock e ficou famosa justamente com a minha música preferida.

Minnie começou cedo. Aos quinze anos já era reconhecida pelos dotes vocais acima da média. Participou com a ajuda dos pais de grupos vocais como “The Gems” e mais tarde “The Rotary Connection”. Seguiu carreira solo e gravou o álbum “Perfect Angel”, de onde saiu o mega sucesso “Lovin’ you”.

Um dia a menina de voz doce afinada e de um agudo que até hoje ecoa nos meus ouvidos nos deixou. Pouco tempo. Viveu apenas 31 anos.  Era 1979, eu acabara de completar 19 anos de vida, muito novo para entender e ela para partir. Talvez por ser anjo precisasse retornar ao lugar onde só os passarinhos entendem o tempo.

A minha impressão é que “Lovin’ you” veio na voz de Minnie dizer que os anjos estão entre nós. Só quem ouve pode ver e sentir. Ainda hoje a percebo soletrando baixinho ao meu ouvido algo que até o tempo tentar explicar:

 

“Lovin’ you is easy cause you’re beautiful

 Makin love with you is all I wanna do

Lovin’ you is more than just a dream come true

Everything that I do is out of lovin ‘ you...”

 

“Amar você é fácil porque você é lindo

E fazer amor com você é tudo que quero

Amar você é mais que um sonho realizado

E tudo que faço é por amor a você...”

Mais na frente o texto fala em envelhecermos juntos e vivermos cada primavera. Esse tempo ela não teve aqui, mas terá na eternidade onde alguém dirá a outro alguém “Lovin’ you”. Um anjo é imortal, o amor também.

 Paço do Lumiar (MA) sábado, 27 de junho de 2020 às 08h59min31s

sábado, 12 de setembro de 2020

“Enquanto engoma a calça” de Ednardo. O maranhense Chico me apresenta ao som do Ceará.

Que os cearenses chegaram pra ficar o Brasil inteiro ficou logo sabendo. Eles não eram só bons humoristas. Eram bons também de viola. Em compor nem se fala.

Após passar no concurso para o Banco do Brasil e ser motivo de admiração e respeito pelo esforço dos familiares, meu primo Chico de Caxias passou um tempo perambulando por agências do Maranhão e foi parar no Ceará.

Com o tempo trocou o “éguas” dos maranhenses por “macho” dos cearenses.

No Maranhão os cearenses já eram conhecidos e admirados pelo talento. Belchior e Fagner já tomavam conta das poucas rádios de São Luís e nos bares os seresteiros iniciavam logo o repertório com eles pra fazer bonito.

“Comentários a respeito de John” e “Canteiros” já estavam nos ouvidos dos amantes do happy hour da época. Sacramentaram presença cearense não só na noite maranhense, mas no país inteiro. “Na hora do almoço” e “Conflito” já eram consagradas desde a época que morei no Rio em 1976.

Em 1983 fiz uma passagem rápida por Fortaleza a convite do primo Chico. Ele estava lá a trabalho e o principal lazer era ir para o clube social dos funcionários do banco nos finais de semana dançar e ouvir boa música. Fã confesso de Gonzaguinha pedia sempre para puxar na viola uma de suas músicas. “Sangrando” o fazia chorar e lembrar do Maranhão. Não sei o lado afetivo dessa canção com o primo. Uma paixão ou simples saudade da terrinha. Isso ele nunca me falou. Só sei que o rapaz cantava a música trabalhada nas lágrimas.

Mas além do compositor carioca que ele gostava apresentou-me outro cearense. Eu disse: mais um. E o cara era bom mesmo. Era o Ednardo de “Terral” e que já tinha feito trilha até para uma novela global: “Pavão Misterioso”.

A canção produzida em 1979 deslizou no vinil da sala em Aldeota com um gostoso violão fazendo ponte e percussão a gosto. O som cearense assim chegou:


“Arrepare não , mais enquanto engoma a calça

Eu vou lhe contar uma história bem curtinha fácil de cantar

Porque cantar parece com não morrer

É igual a não se esquecer que a vida aqui tem razão.

 

Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou

Não foi passarinho foi o olhar do meu amor

Me arrepiou todinho e me eletrizou assim

Quando olhou meu coração...”

Gostei demais e falei pro Chico que aquela já estaria no próximo repertório. Cantamos juntos a noite inteira e depois nas Praias do Náutico e de Iracema pude perceber como eles valorizam seus artistas. Nos violões das calçadas as moças cearenses cantarolavam ao sabor do chopp geladíssimo e da farta gastronomia local sua música sem súplica.

Na rodoviária, rápida despedida. O primo agradeceu a visita. Rumei para o Rio.

Caminhando por Vila Isabel escuto de um som potente vindo de um alto falante uma canção:

 

“Amanhã se der um carneiro, carneiro

 vou me embora daqui pro Rio de Janeiro...”

Pensei: serão os cearenses? E era. Eles atacavam de novo. Liguei pro Chico e avisei: adivinha quem desembarcou no Rio?  Ele respondeu rápido interrogando: Ednardo? Pensei: ele já sabia. 

Paço do Lumiar(MA) domingo 21 de junho de 2020 às 19h03min09s

sábado, 13 de junho de 2020

As “velas içadas” de Ivan vão parar no Lins

Impressionado com a minha capacidade de mudar de um lugar para o outro, Guilherme, meu amigo da Travessa Narceja em frente à Paroquia São Jaime no Lins, perguntou-me por onde eu andava. Eu disse que estava meio sem paradeiro, morando aqui morando ali, e que no momento não tinha um lugar certo.

Certo mesmo era ir para a escola noturna tentar concluir o tal do 2º grau. No Colégio Francisco Campos, no Grajaú, fiz amigos e em especial uma moça da pele clarinha de sorriso lindo, meigo e doce. Era educadíssima e falava baixo e pouco. Ficamos grandes amigos a ponto de nos preocuparmos um com o outro quando na escola não aparecia.

Consegui um emprego de zelador de uma Igreja no bairro do Rocha e o padre me ofereceu um quartinho para morar. Era outubro de 1979 e já era alguma coisa. Ter um endereço, um salário e o rango de graça com direito ao café da manhã estava do jeito que eu gostava. O contrato era de três meses e sei que em dezembro voltaria a não ter paradeiro.

De vez em quando eu sumia da escola e quando eu retornava lá estava ela a me perguntar por onde eu andava. Com firmeza falei orgulhoso o endereço que agora tinha.

Ah, estou morando na Rua Ana Nery, 1114 no Rocha.

Ela anotou e disse que um dia iria me escrever uma carta, caso não nos víssemos mais nas férias. 

Nossos papos eram ótimos, ficávamos o recreio inteiro conversando sobre música e nossas ansiedades de futuro, carreira, trabalho e família. Mas música nos unia pelo mesmo gosto e afinidades sonoras. De longe alguém comentou: “esses dois estão namorando”. Era só amizade.

Em novembro nos despedimos esperando a ano seguinte para enfim ir para o 3º ano e pegar o tal diploma, patamar para um momento melhor, segundo meu professor Nilo que ensinava a sofisticada Física como se fosse um passatempo.

No ano seguinte, morando aqui morando ali de novo, reencontrei a moça que disse que tinha escrito uma carta para mim. Como não estava mais no Rocha e perambulava pelo Lins novamente dormindo ali e tomando café acolá, imaginei que a carta ainda estava com ela. De fato foi devolvida e a recebi em mãos. Era uma carta em forma de canção de amor. Um belíssimo texto de Ivan Lins e Vítor Martins e eu que da dupla só conhecia “Madalena” imortalizada pela talentosíssima Elis Regina, a pimentinha gaúcha.                                                                                               


“Seu coração é um barco de velas içadas,

Longe dos mares do tempo, das loucas marés.

Seu coração é um barco de velas içadas,

Sem nevoeiros, tormentas, sequer um revés.

Seu coração é um barco jamais navegado,

Nunca mostrou-se por dentro

Abrindo os porões...”

Ao encontrá-la à noite na escola, sentando lado a lado e impressionado com o nível do texto, ouvi dos seus lábios puros e rosados a frase:

É assim que eu te vejo: livre.

Com o texto na mão agradeci silenciosamente e retornei feliz e apaixonado para o lugar por onde sempre perambulava. Em abril de 1980, um beijo na Quinta da Boa Vista selou mais que amizade. A frase “esperei tanto por esse beijo” dito na sua voz ecoa no meu ouvido até hoje. Quatro anos se passaram e me tornei professor. Em 1984, subimos ao altar e casamos. Era maio e o lugar Ivan nem desconfia que traz no sobrenome. Hoje tenho um endereço, um grande amor e meu barco já ancorou.